segunda-feira, 24 de novembro de 2008

A DOR E O LUTO..........
Se a cada problema humano se pudesse aplicar uma receita pré-fabricada, se cada aflição tivesse sua panacéia imediata e eficaz, seriamos como sós deuses e não precisaríamos do amor, poderíamos dialogar com eles sem intermediário. Mesmo as pessoas que tratam de reduzir a existência a fórmulas, sustentando que os sentimentos dependem da disciplina e da vontade, em algum momento de suas vidas vêem desmoronar-se essa teoria porque ela é falsa e não resiste á prova. O amor, como os demais sentimentos humanos, tem realidade psíquica e é, inclusive, fisicamente mensurável em termos de eletricidade, de energia. Isso que sentíamos como um fluido que emana de nós e envolve outra pessoa (no amor, na simpatia, no ódio, no ressentimento), não é um elemento imaginário, é um caudal real de energia psíquica, que a ciência chama libido. A energia psíquica invariavelmente se dirige a algo,que amamos,aos que detestamos, ao trabalho que fazemos,até para o simples ato de caminhar,devemos investir libido nos músculos e nervos.Bruscamente privados de seu objeto, a libido se desorganiza e tem de procurar novos ajustes, nova distribuição, esse processo ocasiona angustia e mal estar.Um simples exemplo: vamos levantar um caixote que supomos cheio e nos preparamos para exercer determinado grau de esforço, mas o pacote esta vazio,então sentimos uma fugaz sensação incomoda nos braços e nas mãos, havíamos posto em disponibilidade certo montante de energia e parte dela não foi aplicada.O excedente fica como que flutuando no organismo, sem destino, e essa momentânea ruptura do dedicado equilíbrio enérgico é sentida como desagradável.Pensamos agora nas sucessivas cargas de libido que nos ligam ao ser amado. Investimos libido nele, em sua pessoa, em cada setor de nossa própria memória que guarda recordações associadas com ele, em cada paisagem, som, cor, perfume a ele vinculado, e sabido que na etapa aguda do amor diminuem os interesses alheios á pessoa amada, a maior parte da libido está ocupada nela. Até mesmo o instinto de conservação (libido investida no próprio eu) diminui, conhecem-se muitíssimos casos de amantes que desafiam tremendos perigos só para estarem juntos, ás vezes por breves instantes. De súbito cortam-se os laços e é como se fosse cortado o fio duma lâmpada acessa. ocorre uma pequena explosão, um curto circuito interno.Todas as cargas estruturadas em torno de uma pessoa, de um sentimento,desorganizam-se,voltam ao eu e ficam como que soltas, tratando desesperadamente de restabelecer o equilíbrio, daí a angustia, a aflição, o sofrimento quase físico. Só gradativamente vai a libido encontrando novos objetos: o trabalho, as amizades e por fim um novo amor.
Freud chama a esse processo o trabalho de luto, isto é a perda, por morte ou separação de um objeto importante, o luto anímico por ele. Enquanto dura o luto, o fenômeno absolutamente normal é inevitável, dura a dor mais não a recursos para mitigá-las. .Existe um livro interessantíssimo de Ilka Chase, uma frase, sempre me fez pensar: se quebramos uma perna, todo mundo sabe que são necessários pelo menos quarentas dias para consolidar a fratura, se fraturamos a alma, os amigos, os familiares, psicólogos, logicamente bem intencionados pretendem que possamos reagir e curar-nos em apenas vinte quatro horas, por isso devemos sofrer com o luto, com a dor, separação para depois estarmos prontos para a nova luta, o tal novo amor.......

ROSSANA BRASIL KOPF
VICE-PRESIDENTE DA COMISSAO DA MULHER ADVOGADA-OAB
MEMBRO DO CORPO FREUDIANO DE FORTALEZA

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